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No ocaso da tarde, aquele encontro
tão esperado lhe travava os nervos,
dando-lhe um maravilhoso nó na garganta.
Eram 16h50m e às 17h00 deveria estar ali
aquela mulher que, assim como uma noite de lua
impregnara a sua alma de um tenro calor de
sensualidade. As noite de lua são assim...
Nas folhas da velha mangueira, nas mesas do
rústico bar, nos corações das pessoas, a lua penetra
- reflete - dizem alguns. Tolos. Coisa nenhuma - reflexo,
coisa nenhuma.
"O termo é impregna, entranha, fazer parte de"... Ele
pensava nisso...
Era como a lua. Aquela mulher lhe marcou com infiltração
de raios de sensualidade e posse. Posse? Sim, o seu pensamento
ali era dela. Qual nada, "o pensamento não tem dono", refutaria
alguém. Mas sim, ele o havia doado a ela.
E eram 16h45m.
Há tempos que ele não a via, mas era como se a vida tivesse
ficado estática, como se o tempo não estivesse passado.
Pouco importava se o tachassem de sonhador, romântico ou até
mesmo dependente, viciado. Que importava?
Que se danem "o mundo e os seus donos de verdades",
vinha-lhe à cabeça,
Por um momento ele teve vontade de escrever em negro num
muro branco: "As emoções positivas são tão independentes
do mundo, que se vocês conhecessem, não dispenderiam tempo
a censurá-las. Procurariam por elas". Mas lhe faltava grafite
para escrever - coragem ele tinha para doar.
E já eram 16h58m.
Quando um pássaro passou, voando perto dele, novamente brincou
com o pensamento: "voar deve ser como esperar algo que dá imenso
prazer - transcende para penetrar na essência do ser, de forma
incontrolável..."
O relógio era, junto com o seu pensamento, o seu único e
desejável companheiro, até o momento daquele encontro.
Talvez tudo aquilo que ele estava a experimentar em sentimento,
arrepios, já fosse, quem sabe, o prazer.
Sim, pois o prazer que busca o orgasmo tem em si próprio a maior
dose de prazer.
Mas, a busca e a concretização do orgasmo, eram inseparáveis,
pensou ele.
Mais uma vez, o olhar escravizava-se ao relógio, e mais um minuto
"felizmente havia passado".
Eram 16h59m.
A espera já tinha lhe feito tão bem que, por um instante, ele teve
a vontade de ir embora e levar consigo aqueles doces momentos só,
a dois. E por que não "só, a dois", se tantas vezes ele estivera
"a dois, e só"?
Naquele momento, não. Naquele momento ele estava compartilhando
maravilhosos pensamentos com outra pessoa, que lhe havia sido
maravilhosa em tantos outros momentos.
E 17h00. Eram 17h00.
O sino da catedral chamava para a missa e sempre o fazia às 17h00.
A dois quarteirões dali dava para ouvir-se...
Como de repente, ele sentiu por trás de si mãos macias e inconfundíveis
a tampar-lhe os olhos, e uma voz doce e meiga, como de uma criança
travessa, porém meiga, a dizer-lhe pausadamente: "Hoje à noite
dormirás em meu colo e farás de mim a lua, sedenta de afagos, afagos
que só tu conheces. A minha intimidade com ti é como a de uma criança
com o ventre da mãe - podem viver separadas, mas morrerão um pouco juntas.
Nesse momento ele tinha compreendido e aí sim procurou deixar escrito
naquele muro: " A existência humana pode ser humana se pelo prazer;
porém Divina se pela essência do prazer".
Agora já não importava mais que horas marcava o relógio...
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Ele saía cedo. Às 6 horas da manhã, Toté já vendia jornais pelas ruas da cidade do São Salvador.
Tinha sempre um sorriso nos lábios, gostava do que fazia.
Vendia jornais pensando em ter o tempo livre para fazer aquilo que melhor sabia: jogar bola, ou o "baba".
Era ponta direita, como o fora seu pai e como fora Garrincha. Torcedor fanático do Vitória, Toté contrariava o pai que foi jogador do Bahia, e sonhava ver o filho vestir a 7 tricolor.
Toté tinha 6 irmãos, todos mais velhos que esse "moleque" de 12 anos.
Sempre às 7horas passava pela casa de "seo Carlos" e deixava o jornal, levando junto com o pagamento um pão "cacetinho" com manteiga.
Passam-se 8 anos da nossa história.
Toté está com 20 anos e faz estágio em colégio da cidade como auxiliar de serviços gerais. E vem o grande fato desencadeador da mudança de vida de Antônio Terisvaldo- o Toté.
Ele é convidado para jogar no time, ou melhor, na seleção do colégio- como ponta direita.
Toté "matou a pau" no treino. Fez "o diabo" no primeiro jogo. Era a sensação.
"Lembra Garrincha". "É melhor que Zé Antonio- o pai".
Mais alguns jogos e o Diretor da Escola traz um "olheiro" do Flamengo.
Toté vai para o Rio de Janeiro com Luiz Paulo, o irmão mais velho.
No primeiro dia tirou o lateral titular do treino com um "nó" que lhe entortou a espinha.
Na segunda semana foi para o banco de reservas, já com "contrato de gaveta" assinado.
Entrou em campo aos 30 minutos do segundo tempo.
O alto-falante anunciou: Sai Paulo César, entra Toté.
Foi lançado logo a seguir, driblou um, dois, três, o goleiro saiu e ele tocou por cima.
Gol do Flamengo!
Fim de jogo: Flamengo 1X0 Vasco. Até o final do jogo mais lances de desmoralizar o lateral.
Toté ganhou todos os prêmios, capa de revista e manchetes de jornais: "Surge um novo Garrincha", Toté o dono do jogo".
A filha de "seo Carlos", aquele que lhe dava o pão com manteiga, vem ao Rio e começam a namorar.
Toté é sondado por um time italiano.
Casa-se com Tereza, a filha de "seo Carlos".
Vai para a Itália.
É o artilheiro do campeonato italiano.
São 5:30m. Dona Zefa acorda Toté. Vai começar um dia de luta, de "batalha".
"Levanta moleque. Quem dorme até tarde é moleque de rua".
Os jornais já estão "empilhados", já não dá prá dormir mais.
Só dá mesmo prá viver.
E sonhar...
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